No fio do Bigode- o valor da palavra dada

falsidade

No fio do bigode

​Acredito que os mais jovens não devam se lembrar dessa expressão antiga, utilizada como sinônimo de palavra dada, de comprometimento. Quando se faz um acordo no “fio do bigode”, realiza-se um compromisso, o qual será honrado pela simples palavra dada, independentemente de documentos, de formalidades.
​Quando me refiro ao fato de que alguns talvez possam não conhecer a expressão cunhada em tempos de outrora, temo que não saibam é o significado de comprometimento, de palavra empenhada. Da forma como fui educada, nada tem mais valor do que o compromisso que eu tiver assumido. Não preciso de papel ou testemunha para cumprir meus acordos, meus combinados, eis que entendo que minha palavra me obriga pela honra.
​Para minha tristeza, infelizmente, tenho percebido que essa não é a tônica de muita gente. Como advogada, por hábito da profissão, recomendo que meus clientes tenham o cuidado de registrar seus compromissos, eis que, comprovadamente, há quem não os respeite deliberadamente, apenas cumprindo aquilo que a lei possa obrigar e, ainda assim, ignorando o máximo que possível for.
​Nas minhas relações particulares, contudo, não subordino meus acordos à força de assinaturas, eis que pressuponho delas não precisar, mas não raras vezes me decepciono. Já fui enganada por quem trabalhava para mim, a quem confiei dinheiro e mais uma infinidade de outras coisas, até descobrir que o dinheiro que deveria ser entregue a um prestador de serviço acabara sendo indevidamente “embolsado”.
​Já tomei uma “rasteira” de colegas de trabalho, alguns dos quais eu preparava para me substituir, mas que, ingenuamente, não fui capaz de imaginar que lutariam para tomar meu lugar na base da trapaça, dos conchavos. Pessoas as quais empenhei minha palavra, a qual cumpri, mas para a qual não tive o retorno devido.
​Já vivenciei a situação de pessoas que garantiram que jamais agiriam de determinada forma, que se comprometeram comigo, mas que, na última hora, simplesmente disseram que não seria possível, sem qualquer justificativa. Em todos esses casos, muito além do prejuízo financeiro ou profissional que eu possa ter sofrido, sobrou foi a decepção sobre as pessoas, a sensação de que é uma ilusão acharmos que grande parte das pessoas é confiável.
​Recentemente tomei outra, agora vinda de uma pessoa próxima, a qual eu admirava e pela qual, ainda na seara dos ditados populares, “colocava minha mão no fogo”. Confesso que a decepção é sempre proporcional à expectativa que temos quanto às pessoas. Quanto mais a altura, maior o tombo…
​Para além das minhas mãos totalmente queimadas pelas chamas do desapontamento, restou a infelicidade de constatar, uma vez mais, que não é recomendável baixar a guarda, ignorar cuidados básicos ou mesmo esperar demais dos outros, eis que os riscos são altos e o prejuízo também o será. Novamente cabe a mim decidir o que fazer do que sinto agora, mas lamento a casca grossa que vai se formando sobre mim, colocando defesas que julgava desnecessárias.
​Como já externei diversas vezes, tenho o cuidado de analisar minhas próprias condutas e fico me questionando se já agi de forma parecida com alguém, se já prometi o que não cumpri, por minha livre e espontânea vontade. Ainda que seja certo o fato de que somos juízes brandos em causa própria, não tenho a recordação de que eu tenha sido capaz de fazer isso. Quiçá seja porque só me comprometo com o que de fato posso cumprir.
​Da forma como vejo, um compromisso afiançado pela palavra deveria ser levado até as últimas consequências, pois a honra é o seu pendão e a honra deveria ser valor capaz de suplantar questões mundanas como dinheiro, por exemplo, mas é claro que sabemos que não é essa a ótica desse mundo em que vivemos.
​Como li dia desses, atualmente sabemos o preço de quase tudo, mas o valor de quase nada…

Cinthya Nunes – cinthyanvs@gmail.com

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